A "dolce vita" europeia acabou-se. Depois de quatro horas e meia na fronteira a abrir e fechar caixas tudo acabou por correr bem. Nada foi confiscado e alcançámos Marrakech, onde vamos pernoitar. Estamos quase na média...
Quando percorremos o continente africano, quer em trabalho, quer em lazer, a nossa «experiência» permite-nos, de alguma forma, lidar com as dificuldades fronteiriças com alguma descontracção e até um certo sentido de humor; mas quando se trata de transportar uma tonelada dos mais variados tipos de bens, cruciais para a comunidade a que se destinam, aí o caso muda de figura. Quando me aproximo de uma fronteira sinto um aperto no coração, com medo que a carga seja confiscada. Não deixo de pensar que nos comprometemos com a comunidade da ilha de Bolama, onde está instalada a missão da AMI, a levar-lhe aqueles bens tão necessários, todos arrumadinhos na caixa do «petit camion», repartidos por caixas de plástico e de cartão, que à distancia de um gesto, de um olhar, enfim, da incompreensão humana podem não chegar ao seu destino. Em Tanger, estivemos uma «eternidade» para ultrapassar os trâmites fronteiriços. Não porque estivéssemos a ser revistados, mas porque os senhores polícias simplesmente empurravam de uns para os outros quem devia fazer a revista; até que o Manolo, com toda a calma do mundo, começou a espalhar as caixas estrategicamente escolhidas, com livros e vestuário de criança. Quatro horas e meia depois, uma ordem envergonhada mandava arrumar tudo e avançar. Mais uma vez pude confirmar o jeitinho que o Manolo tem para passar nas fronteiras africanas, onde rapidamente faz «amigos», brinca com as pessoas com o seu modo de ser muito especial, e ainda hoje, na fronteira da Mauritânia, enquanto eu andava às voltas com o visto e com o seguro obrigatório, o meu marido fazia-se fotografar com militares e distribuía generosamente os coletes oferecidos por uma das empresas que tornou possível esta acção, a Caiado SA. O seu sorriso e a sua disponibilidade natural geram, na maioria das situações, uma energia contagiante. De facto, atravessar a fronteira da Mauritânia com o Iveco Daily 4x4, o «petit camion», como lhe chamam os polícias marroquinos, com uma tonelada de bens, entre os quais medicamentos, material escolar, geradores, um frigorífico e material informático e não se ser revistado, e tudo isto em menos de uma hora, é, no mínimo, surpreendente. Já percorremos metade do percurso de ida e a nossa carga mantém-se intacta, amanhã, provavelmente, alcançaremos o Senegal.
Nouadhibou, 8 de Maio de 2009.
Juntos por uma boa causa
A AMI, a Revista 4x4 e a Iveco Portugal juntaram-se para levar até à Guiné uma tonelada de equipamento de saúde, numa expedição humanitária que ligará Lisboa à Região Sanitária de Bolama no arquipélago dos Bijagós. Um Iveco Daily 4x4 cumprirá os 5500 quilómetros que separam a capital portuguesa da zona onde a AMI tem realizado um trabalho meritório na ajuda às populações. O percurso atravessará Portugal, Espanha, Marrocos, Mauritânia e o Senegal, entrando na Guiné pelo Parque Natural de Casamance. Poderá acompanhar esta expedição com crónicas diárias dos participantes da AMI e Revista 4x4 e também dar o seu contributo nas páginas deste blog comentando e dando sugestões.
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